- Psicóloga Vívian

- 26 de nov. de 2020
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A lista de Schindler: Um clássico sobre os extremos da atualidade - Jornal 140 Gabriel Tessarini • Jornal 140 Chega a ser espantoso como uma ideologia de ódio e preconceito que eclodiu há mais de 80 anos não só se manteve, mas também voltou à uma alta atividade nos dias de hoje. No ano em que se completam 75 anos da libertação do campo de concentração de Auschwitz, um dos últimos marcos do terrível período denominado Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial, menções e apologias ao ódio e à violência daquela época talvez nunca foram tão proferidas no decorrer desses anos todos até a atualidade em que nos encontramos. Claro que nunca tivemos tecnologia e meios de comunicação globalizados e desenfreados como os que possuímos hoje. Com a internet e tantas redes sociais, tudo fica mais fácil de ser encontrado e quantificado, como declarações de apologia ao nazismo, ao mesmo passo que mensagens de homenagem, solidariedade e refutação ao preconceito criado antes do real conhecimento sobre as pessoas, seus interesses e suas crenças. Em uma época em que existem aqueles que não acreditam, os que simpatizam e os que sequer ouviram falar desse período da história em que mais de 6 milhões de vidas foram tiradas do mundo, um dos clássicos do cinema que pode despertar nos dias de hoje, assim como despertou há muito tempo, uma reflexão sobre o interesse e a conscientização sobre esse assunto tão importante é o filme A Lista de Schindler, dirigindo por Steven Spielberg e lançado no ano de 1993. O drama norte-americano vencedor de diversos Oscars e baseado em uma história real tem o ator irlandês Liam Neeson no papel principal de Oskar Schindler, um ambicioso empresário alemão, membro do partido nazista que acaba se mostrando o contrário do que aparenta. Schindler, como nada mais nada menos do que um ser humano, utiliza de sua preocupação e seu dinheiro para salvar mais de 1000 judeus da morte nos campos de concentração e extermínio. Com uma representação incrível e terrivelmente realista dos atos de crueldade vivenciados pelas vítimas do Holocausto de acordo com relatos e documentos históricos fornecidos por sobreviventes e interrogados do período, o filme não poupa detalhes para tornar a experiência de assisti-lo imersiva e provocante. Como uma produção que simula um documentário e tem um efeito atemporal em seu desenvolvimento, a obra homenageia não apenas os sobreviventes, mas também as incontáveis vidas inocentes tiradas durante o momento mais sombrio da história moderna, e faz isso como uma lição e uma reflexão sobre os extremos e o potencial do ser humano, relatando de maneira visceral o bem e o mal que as pessoas são capazes de fazer e de sofrer umas pelas outras. Dentre os associados ao partido nazista, Schindler, na realidade, estava no extremo desse círculo por não compartilhar suas ideologias de ódio e discriminação, praticando secretamente a bondade e a humanidade em uma época em que parte dela foi dizimada. Tendo uma fábrica de esmaltados, e posteriormente de armamentos, Schindler usou seus empreendimentos como uma fachada para abrigar e proteger o maior número de pessoas perseguidas que conseguisse, e não fabricar um único produto de qualidade e usabilidade. Schindler estava no caminho para alcançar riquezas usadas no auxílio a essas pessoas, e não fabricar itens que mantivessem o funcionamento da guerra e dos massacres. No outro extremo dessa história, destaca-se o oficial Amon Göth, interpretado pelo brilhante ator Ralph Fiennes, como a representação do preconceito, do ódio, da ignorância e do narcisismo de todos que compartilhavam (e compartilham) dos ideais do nazismo. Göth, como comandante de um campo de concentração, se usava da força e da crueldade para exercer com firmeza seu ofício e seus desejos pessoais intrinsecamente ligados a realização dos atos de extravagância de seu ódio, e pior, da indiferença que permeava a mente de muitos daquela época. Elie Wiesel, um dos sobreviventes do extermínio que foi o Holocausto, diz: Nos campos de concentração, todos tinham seu lugar. Os assassinos iam matar, e as vítimas iam morrer. Nessa dualidade, Oskar Schindler se mostra como um dos extremos da única e real distinção que se possa fazer entre os seres humanos. Aqueles que se importam e os que se posicionam na indiferença. Indiferença ao bom senso, à vida dos outros, ao seu simples e puro direito de serem quem são, sem represálias ou violência em um mundo tão repleto de vida e diversidade. Entre os sobreviventes, há quem pense que as atitudes de Schindler tinham o único objetivo de fazê-lo se passar como inocente e viver livre ao final da guerra. Contudo, com o relato de tantas pessoas que foram salvas por ele e que conviveram com ele, alguém com tanto dinheiro e tão boas condições, principalmente sem participação ativa nos exércitos e nas práticas de violência nazista, poderia simplesmente ter ido embora e alcançado uma boa vida sem perseguições, o que não foi o que Oskar Schindler fez. Como um dos exemplos da ausência de indiferença e presença de humanidade, Schindler fez algo maravilhoso e necessário naquela época, algo que não deixa de ser necessário na atualidade nem em outras situações de perigo. Ajudar ao próximo. Mesmo sendo um alemão filiado ao partido nazista, suas atitudes não o tornaram cúmplice. Sua preocupação não o distanciou e nem o diferenciou dos judeus a quem ele estava salvando, e nem dos outros perseguidos por motivos estereotipados daqueles que se tornaram coniventes ao ódio. A humanidade presente em cada um torna todos próximos uns dos outros independentemente de qualquer particularidade física, religiosa, mental ou sexual. Ao final da obra, Schindler, em uma das muitas cenas marcantes do filme – a mais marcante para mim – se encontra rodeado pelos mais de mil seres humanos a quem ele ajudou colocando sua própria vida em risco, e olhando para os poucos bem materiais que manteve em sua posse, se decepciona aos prantos pela quantidade de pessoas que poderia ter salvo a mais se tivesse se desfeito deles. Dez pessoas a mais por um carro, uma pessoa a mais por um broche. Vidas em qualquer quantidade que valem muito mais do que qualquer coisa que se obtenha nesse mundo. Nem todos podem tomar as mais extremas e boas atitudes para salvar uma vida da forma que o filme mostra. Contudo, com a atual situação de discursos de ódio, incitação à violência e de políticas discriminatórias entre os povos do mundo, nos posicionarmos com firmeza no lugar da atenção e da importância com as pessoas e seus direitos à vida e à serem quem são, já nos afasta do extremo que não podemos nunca nos permitir alcançar novamente, a indiferença.


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