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Crítica | Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica fala sobre luto com o coração Alguns filmes se tornam marcos pela sua capacidade inventiva, por suas inovações, pela forma que decidem tocar em determinados temas. A quadrilogia Toy Story sempre foi por esse lado inventivo e inovador. Por mais que animações anteriores alcançassem universos delicados, como amadurecimento, vida e morte, ser ou não ser (vide O Rei Leão, 1994), depressão, ansiedade e até existencialismo (volta-se à Toy Story), parece que sempre existirão lacunas para a criatividade da Pixar preencher. Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica, por esse lado, não traz nada de novo – e, no final das contas, isso acaba por se transformar em um elogio. Consciente de si, o roteiro de Dan Scanlon (de Universidade Monstros), Jason Headley (de A Bad Idea Gone Wrong) e Keith Bunin (de Amaldiçoado) é seguro o suficiente em ser uma espécie de lado inverso – e tão bonito quanto – de Viva: A Vida é uma Festa (de Lee Unkrich e Adrian Molina, 2017). Cuidado! A crítica pode conter spoilers! Adiante Scanlon, que também dirige a animação, tem, à primeira vista, uma aventura clássica em mãos, que traz uma limitação óbvia: a manutenção do tempo. “Só temos 24 horas para trazer o resto do papai de volta.”, diz Barley (originalmente na voz de Chris Pratt, mas Raphael Rossatto na dublagem brasileira). Essa perspectiva limitadora exige que a história construa caminhos que valham a pena, dada a previsibilidade (ou não) do final da estrada. É justamente nesses caminhos que Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica deixa de ser um exemplar banal, que busca tensão somente na premissa temporal, para se tornar algo muito além do cinema. Os lançamentos do cinema em março de 2020 Nesse sentido, o filme de Scanlon demonstra interesse em fomentar o micro – o individual – por meio do seu macro: enquanto constrói a história de dois irmãos que partem em uma aventura com limite de tempo para encontrar a parte de cima do corpo do pai, o filme discute a importância da autoconfiança. O otimismo de Barley é motor para que Ian (Tom Holland em inglês e Wirley Contaifer na nossa dublagem) cresça e, detentor da magia, busque um mundo melhor para si (o micro) e para aqueles que passam por seu caminho. Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica Ian e Barley: a fraternidade como força para a vida. (Imagem: Disney/Pixar) A jornada de autoconhecimento acaba por trazer reflexões típicas de uma animação Disney/Pixar – e que vão muito além dos aspectos mais íntimos. Se com WALL·E (de Andrew Stanton, 2008), por exemplo, a discussão sobre a degradação do planeta e sobre o que se faz consigo nesse processo é óbvia e necessária, aqui algumas das pérolas estão no âmbito familiar. Acertadamente, o importante para a animação é descobrir o que fazer com as pedras no caminho, porque elas sempre existirão. O título original, inclusive, ratifica o centro de tudo: Onward (algo como Adiante ou Para a Frente em tradução livre) traduz o espírito de Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica. A via expressa Mas, sem dúvida, as discussões vão muito além de frases de autoajuda como Siga em frente! ou Se você se esforçar vai conseguir. O roteiro sabe muito bem onde está pisando e demonstra entender que as teorias rasas sobre o comportamento humano são, justamente, rasas. Por isso, cada detalhe procura enfatizar que existem graus de dificuldade diferentes e que, antes da igualdade, a equidade é necessária. Barley e Ian são, assim, irmãos que buscam ver o pai, em uma alusão clara à silenciosa epidemia do abandono paterno – por mais que exista a delicadeza na exposição por se tratar de uma animação para todas as idades. Esse ponto possui até mesmo rimas um tanto quanto desconcertantes, como a Quimera que é, de repente, uma metáfora a como o mundo está acostumado a tratar mal o diferente... ou como a normalidade tenta desmerecer o complexo. Essa falta de adaptação aos poucos guia a animação em uma transformação: de aventura mágica à seriedade da discussão sobre o luto; do inverso de Viva: A Vida é uma Festa ao outro lado da mesma moeda; de como é complicado seguir caminhos mais difíceis e necessários quando os aparentemente mais fáceis estão à disposição: “Mas a via expressa é mais rápida...” Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica A metáfora social da Quimera... (Imagem: Disney/Pixar) Filmes, Séries, Músicas, Livros e Revistas e ainda frete grátis na Amazon por R$ 9,90 ao mês, com teste grátis por 30 dias. Tá esperando o quê? A única estrada possível É verdade que Dois Irmãos: Uma Jornada de Aventura pode não ter o peso emocional de Toy Story 3 (de Lee Unkrich, 2010) ou da animação que tem como palco central o Dia dos Mortos no México. Por mais mágico que seja, talvez não tenha a magia do Studio Ghibli. Mas, de todo modo, é um filme trabalhado com tanta energia, com um calor tão humano, que, mesmo não buscando ser inventivo ou inovador, é responsável e sincero. Essas qualidades, no final das contas, traduzem muitas das emoções da obra-prima Divertida Mente (de Pete Docter e Ronnie Del Carmen, 2015) e encontram o abraço quentinho da parte superior do pai de Barley e Ian bem dentro de nós. Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica O invisível abraço quentinho pode estar dentro de nós. (Imagem: Disney/Pixar) Se falta cada vez mais humanidade à humanidade, os filmes da Disney/Pixar podem, muitas vezes, relembrar que, a longo prazo, o carinho, o respeito, a empatia e o amor fazem parte da única estrada possível para a nossa salvação. Do contrário, caminhamos com tempo contado para um fim que pode ser trágico. O luto mais pesado é o nosso próprio.

 
 
 

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Vívian L.F. Dublin (2013) Go Into Yourself Intercultural (2018) Cross Culture [Atendimentos Presenciais e Online]

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